Troféu Centenários

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Moradora do bairro Paraventi há quatro décadas, Benedita da Silva passou a fazer parte de um seleto grupo entre os seres humanos: o daqueles que chegam aos 100 anos de vida. Paulista da cidade de Tapiratiba, ela atingiu a idade centenária no dia 25 de junho. E ainda dispõe de boa saúde e disposição para fazer o que gosta: estar com a família, os amigos, participar de festas, cantar e se divertir muito. Amante de música, já compôs algumas canções. Entre elas, uma no estilo sertanejo na qual conta um pouco do que viveu no interior de São Paulo, e da saudade dos pais.

 

100-anos-guarulhosBenedita da Siva(fotos/Fabio Nunes Teixeira/PMG) 

 

Benedita será uma das homenageadas deste ano pela Prefeitura com o Troféu Centenário, em sua segunda edição. Os moradores da cidade com mais de 100 anos de vida ganharão uma festa, no dia 6 de dezembro, no Restaurante do Taboão (rua Adolfo Noronha, s/n – Taboão), a partir das 17h. O evento terá dois shows com artistas da Jovem Guarda: os cantores Cyro Aguiar e Angelo Máximo.

 

Antes de vir para Guarulhos, Benedita morou na capital paulista, onde chegou com o marido na década de 1940 e acompanhou grande parte do desenvolvimento da metrópole, a quarta maior do planeta. Antes, porém, já havia ficado na cidade, trabalhando como doméstica na casa dos mesmos patrões que a empregavam no interior. “Quando chegamos a Guarulhos, tudo aqui em volta era mato. Água encanada não tinha, havia um poço no quintal e uma bomba; quase não tinha casa”, afirma, lembrando-se de como encontrou o bairro quando ao chegar ao município.

 

Benedita mantém uma vida ativa, viaja para casa de parentes e amigos. Sua rotina inclui levantar cedo, por volta das 8h, e dormir relativamente tarde, raramente antes da meia-noite. Como gosta de cozinhar, assiste a programas de culinária. Só lamenta não poder comer mais tão “gostosinho”, como costuma se referir a alimentos mais temperados e salgados, pois tem de cuidar da pressão, que ficou um pouco mais alta com o tempo. Apesar disso, tem uma saúde invejável para a idade.

 

Ela também não tem problema de audição e enxerga muito bem. “Só essas letrinhas de bula de remédio que não dá para ler”, diz com o humor habitual. E quando a perguntam sobre o segredo para chegar a sua idade com tanta disposição, Benedita usa mais uma vez o bom humor para responder: “É rir bastante, gostar de contar piada, passear bastante e também cuidar da alimentação, com bastante tempero, gordura, pimenta”, ironiza.

 

Aumento da longevidade

 

Apesar de que, chegar aos 100 anos continue sendo um fenômeno, talvez em um futuro breve seja um pouco mais comum. A longevidade do brasileiro tem aumentado bastante nas últimas décadas. Atualmente, a expectativa de vida é 25 anos maior que na década de 1960. E hoje o número de brasileiros acima de 65 anos é três vezes maior que cinco décadas atrás.

 

O resultado é sintoma de uma série de mudanças de hábitos, bem como maior acesso à informação e a serviços de saúde. Guarulhos não foge à regra nacional e registra o aumento de moradores com mais de 65 anos. Alguns deles com idades centenárias, como os personagens a seguir, que serão homenageados com o Troféu Centenários.

 

Ana Corado Botelho, 100 anos

 

Filha de italianos, Ana Corado Botelho nasceu no interior de São Paulo, na cidade de Dois Córregos, em 4 de maio de 1914. Ela era um dos 14 filhos do casal e trabalhou muito na roça para ajudar a família, como era praxe na época. “Meu pai tinha sítio e eu o acompanhava na roça: plantava arroz, feijão, mandioca”, lembra. Desse período, diz não sentir saudade. “Não sinto nenhuma saudade. Eu não tinha estudo, não podia ir para a escola, porque morava longe. Ficava só dentro de casa”, explica. Com isso, não aprendeu a ler.

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Ana Corado

 

Aos 18 anos, no entanto, Ana foi morar na capital paulista, após casar-se. O marido, Romeu, era alfaiate, mas ao mudar-se para São Paulo começou, com o tempo, a trabalhar de investigador de polícia. Do casamento, teve três filhos, dois homens e uma mulher, sendo que o mais velho já faleceu. Se não sente saudades do período no interior, a adaptação à capital paulista também não foi fácil. “Eu chorava o dia todo. Era difícil se acostumar”, diz. Apesar de ter casado muito jovem, afirma ter sido namoradeira. “Eu namorei muito. Dizem que eu era muito bonita e eu aproveitei”, revela, com um sorriso tímido.

 

Ana vive há três meses em uma casa de repouso de Guarulhos, depois de ter morado durante mais de uma década com o filho caçula, após a morte do marido. A família resolveu levá-la para o espaço porque acredita que lá ela tem um acompanhamento profissional mais próximo, o que não seria possível na casa do filho.

 

Maria Lourenço da Conceição, 102 anos

 

No registro de nascimento da baiana de Ilhéus Maria Lourenço da Conceição consta que ela tem 102 anos e completará 103 em breve, mais precisamente no dia 6 de janeiro. O documento, no entanto, foi obtido muito anos depois de seu nascimento, quando foi ao cartório porque precisava de alguma certidão oficial. Na hora de tirar o documento, ela só se lembrava que tinha nascido em uma dia de lua cheia de janeiro, mas não sabia o dia exato em que veio ao mundo. Mas mesmo antes de providenciar a documentação, seus oito filhos foram registrados com seu nome.

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Maria Lorenço

 

“Eu tive muitos filhos, mas a luta era tanta que eu perdi alguns”, afirma Maria, que diz ter trabalhado na roça na Bahia e se casado aos 12 anos. “Quando eu casei, não sabia nada do amor. Só peguei amor por meu marido quando nasceu meu primeiro filho”, explica, ao lembrar que adora crianças e plantas. Aliás, o trato com a terra faz parte ainda de suas atividades diárias na casa onde mora, no bairro Cidade Soberana, aonde chegou aos 30 anos de idade e se fixou. “Fui uma das primeira moradoras do bairro”, orgulha-se.

 

No quintal da casa, colhe alguns frutos que durante muito tempo serviram para ajudar no sustento da família, pois vendia parte do que cultiva no pequeno quintal. A chegada a Guarulhos se deu após a morte do marido, à época com 48 anos. Segundo ela, a família perdeu tudo e teve de mudar. “Depois disso, fui trabalhar em casas de família. Minha filha tinha casado e vindo para cá, e mandou me buscar”, explica.

 

Ana Pereira Santana, 103 anos

 

Moradora do bairro Jardim São Francisco, Ana Pereira Santana chegou ao Estado de São Paulo em 1939, época em que uma viagem desse porte demorava muitos dias. A viagem para o Sudeste foi uma verdadeira saga. Começou na cidade onde nasceu, Caetité, na Bahia, de onde foi levada de carona pelo patrão até Gameleira. De lá, pegou um caminhão pau-de-arara que a trouxe para São Paulo. “Eu vim da Bahia sentada em cima de uma lata de querosene”, relata. Quando questionada quanto tempo demorou o percurso, responde: “eu vou saber?”.

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Ana Pereira

 

Ana diz que tem saudades da Bahia, onde esteve pela última vez em 1979. A maior parte dos oito filhos nasceu em São Paulo: cinco. A mudança da família de Estado ocorreu em etapas. Primeiro veio o marido de dona Ana, para trabalhar. Ela e os filhos vieram depois. A família é numerosa, e ela não sabe de cabeça quantos netos, bisnetos e tataranetos tem. Mas todo fim de ano gosta de reunir os familiares na garagem de sua casa. “Não sei se ano que vem eu vou estar aqui”, argumenta.

 

Bem humorada, afirma sem modéstia que esperava, sim, viver muito tempo, seguindo exemplos da árvore genealógica. “Minha vó morreu com 115 anos”, explica. Sua saúde dá bons indícios para que Ana tenha essa expectativa, pois nunca apresentou qualquer alteração de colesterol ou outro problema grave de saúde, apesar de apreciar um cardápio com comidas fortes, típico da gastronomia baiana.

 

No dia a dia, revela aos risos que o que mais faz ultimamente é dormir. Mas também tem como passatempo assistir a programas de jornalismo, sobre o pessoal na TV, além de atrações religiosas. Católica, sua devoção está representada em seu quarto, entre imagens de santos, onde diariamente faz suas preces.

 

Ana Costa, 105 anos

 

Ana Costa é mais uma pessoa que, apesar de uma vida bastante sofrida, conseguiu superar as adversidades e alcançar a longevidade. Nascida em São João da Vigília, em Minas Gerais, em 1909, passou parte da vida em Mato Grosso, próximo à divisa com São Paulo. A mudança ocorreu depois que ela se casou, aos 26 anos, com um funcionário da fazenda do pai dela. Depois da morte do marido, o pescador Artur Moreira, aos 42 anos, ela mudou-se com os filhos para Piquerobi, no interior de São Paulo e próximo à divisa com Mato Grosso. Ao todo, o casal teve 12 filhos, sendo que cinco ainda estão vivos.

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Ana Costa

 

Em Piquerobi, Ana e a família tiveram de trabalhar duro para se sustentarem. Junto com os filhos, colheram algodão, mandioca e outras culturas nas roças da cidade. Em Guarulhos, ela chegou há quase 60 anos. Até então, não tinha documentos e teve de providenciá-los para que pudesse trabalhar. A documentação, no entanto, foi feita com 10 anos a menos que a idade real.

 

Segundo a família, mesmo sem saber ler, fez questão de que todos os filhos frequentassem a escola. Ela, porém, decidiu aprender a ler aos 70 anos, e matriculou-se no antigo Mobral, sistema de ensino supletivo equivalente ao atual EJA (Educação de Jovens e Adultos). Atualmente, Ana Costa vive com a décima-primeira filha, Tereza, de 64 anos, no bairro Gopoúva.

 

Ela tem boa saúde, consegue se locomover sozinha, embora a filha prefira estar sempre por perto, para evitar quedas. Uma de suas distrações é ouvir música, já que não tem muita paciência para assistir a TV. Seu gênero musical preferido é o sertanejo. Apesar da idade, não mudou muito sua alimentação e não falta carne no cardápio, principalmente de frango, seu prato predileto. Isso apesar de não ter mais dentes, pois não se adaptou a usar dentadura.

 

Maria Josefa Jesus da Paz, 105 anos

 

Nascida na cidade de Poções, no sertão baiano, Maria Josefa Jesus da Paz veio para o Estado de São Paulo há 20 anos, tendo se estabelecido no bairro do Cabuçu, onde mora com a filha caçula. Mãe de seis filhos, frutos de dois casamentos, ela não tem contato com todos eles, todos nascidos na Bahia.

 

Apesar de viver bem e receber o carinho inclusive de vizinhos, que a chamam de “vozinha”, ela não esconde a saudade da terra natal, principalmente dos sabores do tempero baiano. “Gosto de torresmo, pimenta, mocotó, requeijão. Mas hoje eu como um pouquinho só, porque tenho colesterol e pressão alta”, lamenta-se.

 

Maria teve uma vida árdua, trabalhou na roça desde criança e não foi alfabetizada. Do trato com a terra, aprendeu tudo com o pai. “Meu pai me ensinou muita coisa, mas não me colocou na escola”, diz, expondo um traço do machismo que havia até então, já que os dois irmãos aprenderam a ler. Já ela, a única menina, não. Desse período, lembra de um ritual que presenciou o pai realizando durante muito tempo, embora não compreendesse: queimar parte dos frutos que colheu, como uma forma de oferenda a Deus. “Eu perguntava e ele me falava ‘é a mesma coisa que o dízimo’”.

 

Segundo Maria, seu primeiro casamento ocorreu ainda na adolescência, aos 15 anos. Dos cinco filhos dessa relação, o primeiro veio um ano depois do casamento, mas mesmo no período da gravidez não largou o trabalho na enxada, tendo saído do trabalho apenas para dar à luz. O primeiro marido, 20 anos mais velho, morreu aos 75 anos. Depois, ela casou-se com um viúvo, com quem teve a filha caçula.

 

Evangélica, ela orgulha-se de ter tido uma vida sem vícios, longe do álcool e do fumo, e também de sempre usar roupas bem comportadas e não utilizar adornos como brincos e pulseiras. Outro orgulho é o cabelo branco, sempre preso. Se é que se pode chamar de vaidade, o único traço é a utilização de perfume. Nunca pintei unha; nunca usei batom, mas sempre gostei muito de perfume”, ressalta.

 

Dona Maria acorda cedo, mas não executa mais tarefas domésticas, principalmente devido à catarata que atinge o olho esquerdo. O outro olho já apresentou o mesmo problema, solucionado com uma cirurgia, que ela pretende repetir no esquerdo. Fora esses problemas típicos até em pessoas com idades inferiores à dela, Maria já superou dois cânceres de pele, um na testa e outro que atingiu o lóbulo da orelha, que teve parte dele retirado. “Eu não posso tomar sol, mas tomo o dia todo, de teimosa”, justifica.

 

Otacília Gomes de Oliveira, 105 anos

 

“Os farmacêuticos ficavam aborrecidos comigo, porque eu não ocupava eles”, diverte-se Otacília Gomes de Oliveira, com 105 anos de vida, completados em 12 de maio. Com ótima saúde, ela continua sem dar muito “trabalho” aos profissionais da saúde. Alagoana da cidade de Poço das Trincheiras, Otacília veio para São Paulo como muitos migrantes nordestinos: a bordo de um caminhão pau-de-arara. Chegou ao Estado em 1950, inicialmente instalando-se em Maripá, à época um vilarejo da cidade de Lucélia. Em 1971, mudou-se para São Paulo, transferindo-se para Guarulhos cinco anos depois. Ela trabalhou durante muitos anos como costureira e também exerceu o ofício de parteira durante 40 anos. “Cortei muito umbigo de criança. Eu tenho tanta criança no céu que acho que por isso que eu ainda estou viva”, destaca.

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Otacília

 

Atualmente, Otacília mantém-se ativa executando algumas atividades domésticas, como cozinhar. “Eu tenho de temperar para eu comer do meu jeito, com alho, coentro, cebola”, explica a moradora do bairro Paraventi. Além disso, católica e benzedeira, ela ainda recebe algumas crianças do bairro que os pais levam para receber uma bênção e para que Otacília reze por eles.

 

Devota do lendário padre Cícero, ela orgulha-se de ter costurado uma batina para o religioso. Entre suas lembranças do período do sertão, conta que o pai dela chegou a conhecer outro personagem da história nordestina, o cangaceiro Virgulino Lampião. O encontro ocorreu quando o pai trabalhava como arrieiro, atividade que consiste em transportar ou descarregar mercadorias utilizando animais de carga.

 

“Meu pai andava com a tropa de burro e Lampião tratou de ir tomar um café em minha casa, mas errou a estrada, e nós demos graças a Deus”, afirma, às gargalhadas. Otacília teve ao todo 15 filhos, em um casamento que durou 84 anos. O marido, José Francisco dos Santos, também teve uma vida longa, e faleceu no ano passado, aos 108 anos.

 

Maria Antonia da Silva, 107 anos

 

Aos 107 anos, Maria Antonia da Silva é uma das mulheres com mais idade na cidade de Guarulhos. Nascida no Pará, ela chegou a Guarulhos em 1982, depois do casamento da filha mais velha, que a trouxe para São Paulo. Mãe solteira, ela teve quatro filhos, sendo dois gêmeos, com os quais ela mora, no bairro Gopoúva. Com problemas de audição, atualmente Maria Antonia não costuma conversar muito. Apesar disso, seu estado de saúde é muito bom. Ela faz exames com frequência e nunca apresentou qualquer problema grave. Segundo uma das filhas que ajuda a cuidar dela, Maria Euricéia, de 61 anos, a mãe era mais ativa até fraturar o fêmur, há cerca de 10 anos. Depois disso, por receio de sofrer nova queda, passou a locomover-se sempre com o auxílio de um andador.

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Maria Antonia

 

Maria Antonia trabalhou durante muito tempo como empregada doméstica e até bem pouco tempo costumava costurar, mas parou, alegando que “cansava muito a vista”. Atualmente, passa a maior parte do tempo deitada ou sentada em uma poltrona. Segundo a filha, Maria Antonia sempre gostou de ter os filhos perto dela e ainda hoje demonstra preocupação com eles. Ela fica inquieta enquanto os dois filhos gêmeos não chegam em casa, pergunta por eles e vai verificar nos quartos se eles já estão na residência.

 

Fonte: Prefeitura de Guarulhos