Ex-morador de rua dá a volta por cima

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O rosto que hoje sorri e aos 28 anos festeja o emprego com carteira assinada em uma loja no Centro de Guarulhos é o mesmo que já chorou por se encontrar em situação de rua aos 25.

 

Nos últimos três anos, mudaram os hábitos, a rotina e os sonhos daquele que já viveu em albergues e hoje prepara-se para atender a clientes com educação e cortesia. Foi perdendo tudo que Daniel Pereira Evangelista se descobriu.

 

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Daniel em frente ao seu local de trabalho no Centro de Guarulhos / Foto: José Luiz

 

Era junho de 2012 — o ano mais marcante de sua vida — quando o morador do bairro Cangaíba se envolveu em uma briga. Machucado, saiu para usar drogas na Praça da Sé. No caminho, passou mal. Desceu do ônibus nas proximidades da Penha. Sem dinheiro, caminhou por seis horas até chegar a Guarulhos. Mesmo sem contatos por aqui, conseguiu encontrar um irmão, cinco anos mais velho, também morando na rua.

 

Drama começou em Guarulhos

 

Sem saída e sem um centavo no bolso, foi no albergue municipal que achou abrigo. “De repente, me vi sem rumo. A ficha não caia. Eu chorei muito. Demorei a aceitar; a cabeça ficou atordoada e os pensamentos confusos. Vim para Guarulhos só com a roupa do corpo. Na época, eu não tinha dinheiro para outro lugar, além do albergue. Saia às 7h da manhã para comprar balas e vender no farol. Terminava o trabalho às 4h da tarde e voltava para o albergue.”

 

Pela avenida Paulo Faccini, Daniel começou sua perambulação. Na rua por 10 meses, ele se adaptou à rotina e acabou se entregando ao vício das drogas. Daniel usou drogas pela primeira vez aos 14 anos e se tornou dependente aos 19. Hoje está limpo e conseguiu superar a dependência química

 

Infância e relação familiar

 

Daniel perdeu a mãe aos 4 anos e o pai aos 20. Ele era muito jovem quando seus pais faleceram, por isso, foi criado por uma tia, que morreu quando ele estava com 22 anos de idade. Tem 5 irmãos, dois criados pela tia e três pela avó.

 

Volta por cima

 

Depois de conhecer o projeto Bom Samaritano, mantido pela Associação SOS Família São Geraldo e cofinanciado pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social, Daniel encontrou Amanda Vergílio e se apaixonou. Então funcionária da Associação, a fisioterapeuta de 33 anos foi sua inspiração para mudar de vida. “Mal tenho palavras para descrevê-la. É maravilhosa. É admirável. Ela é a minha base. Ela é quem me dá forças pra lutar.”

 

Hoje, Daniel conquistou seu amor. Ele e Amanda alugaram uma casa e vivem juntos em um condomínio fechado no Jardim Acácio, em Guarulhos.

 

“Minha vida começou ali. Voltei a trabalhar e assumi várias responsabilidades. As portas se abriram e já trabalhei em três empresas — conta o vendedor, que já está há um ano na loja Magazine Luíza, ao lado da igreja Matriz.

 

De acordo com a secretária de Desenvolvimento e Assistência Social de Guarulhos, Genilda Bernardes, para trabalhar com os moradores de rua é necessário olhá-los além das estatísticas e números. “O resultado desse trabalho nos dá muito orgulho. Cada ser humano tem cor, nome, respeito e nossa solidariedade. Aos poucos, seus relatos emocionantes se revelam diante de nós. Deixam de ser anônimos. Compartilham seus dramas pessoais. Não basta amenizar os sintomas, mas é necessário atuar nas causas dos problemas sociais.”

 

Em 2015, dos 77 atendidos pela equipe de abordagem social, seis restabeleceram seus vínculos familiares. Em 2014, 128 pessoas deixaram as ruas, ingressaram no mercado de trabalho e retornaram para suas casas.

 

Fonte: Prefeitura de Guarulhos